Os livros continuam firmes. Os leitores também

13 Abr

Tinha esta história de que o ebook ia acabar com livro. Depois que o facebook ia acabar com o ebook. Daí acho que deve ser o whatsapp é o fim do facebook. Enfim, a pequena falácia acima é apenas uma provocação para aquele sentimento de que as redes sociais e a tecnologia vieram para limitar ou diminuir a relação do leitor com o objeto livro.

Muita, muita gente discutiu e ainda discute isso. Já até ouvi dizer que as pessoas hoje em dia só leem textos curtos. A despeito de todo o grande debate. O leitor ainda existe. Persiste, existe e frutifica.

Dois sites muito legais se dedicam a clicar leitores nos vagões do metrô. Um na cidade de Nova York, o outro em São Paulo. Undergound Public Library identifica o livro e clica os leitores. O Tem Gente Lendo faz o mesmo e ainda tem um tom de portal. Com matérias, dicas e outras reflexões sobre a leitura.

Os livros estão ai. Os leitores também. Firmes mesmo no subsolo das grandes cidades, mesmo na existência marginal de uma atividade que exige cultivo de habilidades difíceis no mundo de hoje como, por exemplo, a permanência no momento. Para ler literatura, livros e livros é preciso estar presente. Ainda assim os leitores resistem.

Nas frestas dos livros de Chico Buarque de Hollanda

4 Abr
Desde meu tempo de escola era meio obrigatório gostar de Chico Buarque. Mesmo tendo somente o rádio e umas fitas cassete além pais não militantes claro que sabia cantar ao menos o refrão de seus hits musicais. Ele estava lá: no livro de história, nos compêndios, nas sabedorias de roda de samba, era um unânime. Por isso mesmo meu eu adolescente sempre rejeitou esse culto ao homem bonito-politizado-artista-perfeito. Tinha uma melhor amiga que amava Chico e depois na faculdade de humanas conheci um sem-número de “Chicólogas”, como eu chamava secretamente aquelas que sonhavam em tomar Chico Buarque como amor ou amante.
Tudo isso pra dizer que nunca tive grande simpatia pelo Chico. Como assim um personagem que a gente é obrigada a amar sob o risco de ser a parte de um caldo cultural relevante? Eu, criada na distorção do metal, batizada no new metal e no hardcore e amante eterna do Indie Rock já tinha resistência natural à MPB e suas facetas. Escolhi não amar Chico.
Ja adulta lembro de passarem pelas minhas mãos e nas muitas bibliotecas em que trabalhei exemplares dos livros de Chico Buarque escritor. Sem muito interesse passei por eles como passei pelo Chico cantor.
Neste ano estava em um aeroporto apenas para usar o caixa eletrônico e sem livro para ler. Comprei  “O Irmão Alemão” , livro mais recente do Chico Buarque. Nele o autor conta a história – quase verdadeira – da descoberta e da busca pelo meio-irmão nascido na Alemanha antes da segunda guerra.
O genial do livro é a quase verdade da história. Os personagens meio que são Chico e sua família, meio que não são. A genialidade do Chico escritor é fazer digressões belíssimas entre o que é a realidade de seu protagonista , Francisco – Ciccio – de Hollander e a fantasia do filho de intelectual que busca um irmão perdido e o encontra em todas as esquinas, em todos os estrangeiros. Para isso o escritor constrói um retrato vivo e intenso da São Paulo nos anos 1960 ante e depois do golpe militar. Francisco, o protagonista, filho segundo de um irmão belo e conquistador não esconde suas manias e revela ácida e docemente a trajetória adulta de um homem. Através dessa busca que se mistura com sonho o personagem – e quem sabe o próprio Chico –  (re) constrói sua relação com o pai enquanto busca o laço com irmão alemão. Os livros, as mulheres, o retrato de seu tempo. Chico Buarque escritor realiza o que parece impossível, atinge o melhor de sua prosa usando digressões em que fantasia e realidade se misturam.
Os vazios que o autor deixa para construir os personagens são bonitos, deixam margem para o leitor completar e imergir na história meio real, meio fictícia do seu irmão alemão. O fim do livro porém tem um buraco, salta de um fase para outra de modo abruto e estranho para nos contar afinal se Francisco de Hollander encontra ou não esse tal irmão alemão.
Chico deve ter se valido do seu talento para o lirismo porque há passagens belas, descrições precisas de personagens, detalhes como o jeito de falar alô em francês, umas botas com saia curta, um jeito de poema em todos os capítulos.

O que mesmo a gente sabe fazer?

26 Mar
No mural da escola tinha inscrições para oficinas. Como a escola é humanista e tem uma proposta pedagógica diferente  as oficinas são ofertadas tanto por professores, quanto alunos, bem nesta ideia de que todos são educadores .
Meu espanto veio quando vi os títulos : “como usar a furadeira com segurança”,  “como operar caixas de som e microfone”,  “como fazer doces usando biscoitos” , “fanzines” e coisas assim. Fora o interesse que fiquei em aprender a usar a furadeira – pensei nisso hoje mesmo que meu chuveiro queimou e não sei trocar – chamou minha atenção a temática das oficinas: eram oficinas de coisas que sabemos fazer. Coisas práticas ou não práticas elas são alguma coisa que sabemos fazer.
Investimos tanto tempo, dinheiro e energia na vida profissional em estudos, cursos, etc.  mas o que sabemos fazer de verdade? Minha mãe sabe tricotar, meu pai sabe plantar qualquer coisa. Meu irmão conserta todo e qualquer aparelho eletrônico e por aí vai. O que no fundo sabemos fazer que nos ajudaria ou que ajudaria alguém? O que você ensinaria se estivesse nesta oficina?
Talvez a resposta fale bem sobre nosso tempo. Sobre quem somos, o que valorizamos. Temos sido uma cultura de substituição, de adquirir novas coisas, de acumular. Por isso temos visto surgir movimentos que valorizam o cuidado, o “slow”, o conserto, o detalhe. Estes movimentos vem como contraponto natural do ambiente que se acha saturado de facilidade e vazio de significado. É nestes contrastes que grandes movimentos criativos de constróem, talvez o movimento de cuidar do que se tem leve a uma nova construção de saberes. Saberes que tenham significado , que possam ser transmitidos adiante.
Eu acho que seria boa em ensinar a gostar de ler. Ensinar como fazer uma boa lista e cumprir. Ensinar a ser organizado. Seria boa a ensinar em ficar em silêncio consigo mesmo. Daria uma oficina de criação de escrita. Daria uma oficina de como aproveitar seu próprio guarda roupa sem comprar nada. Podia ensinar como passar roupas com sucesso. Podia ensinar a cozinhar muita coisa. Podia ensinar a contar histórias , cativando sua audiência

Conforto de livro quentinho

15 Mar

A vida tem fases, né? A de todo mundo. A minha tem. Tenho fases super motivada, energética e fases melancólicas. Fases de problemas também. Fases em que as dores falam mais alto e nestas horas eu tendo a me encolher. Cada um é de um jeito. A questão é que navegar em águas tranquilas não existe. Existe viver, estar vivo.

Hoje pensei no ano de 2007. Foi um ano em que tive uma grande perda na vida. Doeu muito. Fiquei sozinha em um lugar bem escuro dentro de mim. E os livros me ajudaram. Acho que existe livro de tirar de fossa, sim mas mais do que isso , tem livro que faz companhia. Livro amigo, quentinho, feito um colo. Sabe quem me ajudou em 2007? Harry Potter.

Nunca fui Pottermaníaca, não cresci esperando cada lançamento. Não era nem mesmo fã de mundos fantásticos. Mas basta uma decepção no mundo real pro mundo fantástico fazer sentido. Precisa ter algo mais do que isso…

Harry foi meu companheiro. Em dois meses li toda a saga. Li os dois últimos bem devagar já sofrendo de despedir do personagem. Os livros best-sellers tem uma má fama que não merecem. Eu acredito mesmo que tem apenas uma máxima em leitura literária: para cada livro seu leitor.

O leitor existe, a missão está completa. Paulo Coelho, Nicholas Sparks, JK Rowling, Agatha Christie e outros mais chegam no coração do leitor de modo certeiro. Críticas e conteúdos à parte. Nasce alguém que emerge nas entrelinhas de texto, que passa a carregar livro na bolsa, que se demora olhando vitrine de livraria, que analisa estante de livro da casa dos outros. Nasce um leitor. Um bichinho pica: está feito.

Por isso me orgulho muito dos meus tempos com Harry. Ele órfão, eu ferida sabemos bem o que passamos juntos naquele 2007. O livro era muito meu refúgio e até hoje é. Quando tenho fases mais dark, obscuras volto para Hogwarts. Leio e releio meus livros e trechos preferidos: amo Harry Potter e a ordem da fênix e Harry Potter e as relíquias da morte. Li tanto e com tanto amor que vejo com interesse a revolução provocada pela febre de Potter. Vejo ao contrário do que dizem os críticos ,há densidade literária na saga. Vejo jovens leitores que depois de Harry foram para outros livros! Muitos foram a lugar nenhum mas não importa. Importa o leitor que houve, naquele momento mágico em que o personagem, o mundo literário era só dele. Isolamento e profundidade ao mesmo tempo. Um conforto de livro quentinho.

O avesso da pele

8 Mar

A imagem que me ocorre quando penso no livro que acabo de ler “Americanah“, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi é o prisma que refrata a luz em matizes de cores diferentes em todas as direções. A luz branca que vem é negritude ou a questão racial, de pele, de raiz, de pertencimento, de busca. A história contada pela protagonista Ifemelu, uma então adolescente de Lagos, Nigéria e sua saga percorrendo o mundo em busca de escolhas. No percurso e no fundo uma história de amor muito, muito bem desenhada e contada. A protagonista é daquelas que depois do segundo capítulo já é uma pessoa que você deseja ser, sabe como? Inteligente, afiada, resolvida, sensível na medida, crítica, suscetível, complexa, altiva, direta e a lista segue.

Quem sabe Ifemelu não é um eco da própria autora do livro? Muitas vezes pensei isso. Conheci Chimamanda por sua famosa TED-talk sobre feminismo. E ela é magnetica, linda e desejosa. Ifemelu também. E vamos com ela até a América para descobrir o irônico fato de que apenas ao pisar em um país onde raça e exclusão formam uma equação e que a maioria da população não é negra ela sente necessidade de refletir, de dar voz ao paradigma do racismo. Em uma passagem do livro, quando volta à Nigéria a protagonista diz algo assim: quando cheguei a Lagos não quis mais escrever meu blog sobre racismo, na Nigéria não me senti negra.

Quando vai para os Estados Unidos Ifemelu deixa para trás o amor, na pessoa de Obinze, o homem perfeito-imperfeito. Culto, filho da classe média que imigra para a Inglaterra e ambos, em uma vivência distinta lançam sobre o prisma a luz que refrata as matizes do imigrante no primeiro mundo, do negro no quintal dos brancos, do racismo, da xenofobia.

Americanah é tão sensível e tão franco quanto eu leitora jamais imaginaria. Na voz de sua protagonista as partes do livro vão se encaixando e ela é levada de volta à Nigéria após anos de amores, prosperidade e sucesso para encontrar-se com o fim de seu destino: será Obinze? Como Chimamanda é boa !! Eu logo estava enchendo o livro de orelhas e marcando trechos à lapis. Americanah é um compilado de quatro partes de uma história só: amor, continente e raça. É um livro sobre ser mulher no mundo de hoje, sobre ser homem no mundo de hoje. É uma história de amor maravilhosa. Daquelas que você torce para os personagens, pensa neles durante o trabalho, imagina o que eles farão agora.

Não sei de onde vem essa citação do homem que precisa dar a volta ao mundo para encontrar a própria aldeia mas é esta a história de Ifemelu e Obinze. Pessoas que, grávidas de sonhos, filhas de um país dividido migram e emigram para encontrar o que estava ao lado, ou do lado avesso.

O que ler agora?

1 Mar

A escolha de um livro para ler pode ser um dilema às vezes. Acredito que para cada situação é preciso um tipo de livro. Livro para alienar, para ler na praia, para ler nas festas de família, para pensar, para enriquecer referências, para desconstruir, para fazer companhia, para viagem a dois… enfim; livro para todo tipo de situação.

Brinco que como sou uma pessoa ligada ao tempo sempre fui afeita a clássicos. Fui. Na adolescência até o começo da vida adulta sempre quis ler os livros que as resenhas e a história dizia serem imperdíveis, talvez em uma busca por preencher uma lacuna cultural ou por aceitação sempre fui uma grande leitora de clássicos.

De uns anos para cá tenho lido bastante literatura contemporânea, escritores de outros países como Noruega, Japão, Nigéria, etc. Muitos livros contemporâneos do Brasil. Tenho me divertido também com literatura fantástica e livros adolescentes, que aliás são os melhores para levar em praia ou viagem de família, fica a dica.

Estes do tipo “sick-lit”, como “A culpa é das estrelas”, dentre outros. E como escolher? Os livros sempre me escolheram. Vou deixando a fase da vida ditar a literatura. Se é mais introspectiva, melancólica vou em livros mais dramáticos, se é mais militante, leio literatura feminista ou de grandes modelos. Se a fase é de vazio, leio biografias, ótimas companhias para ler e ônibus e metrô, por exemplo.

Dias de solidão inesperada no domingo sempre cabe um livro de arte ou imagens para inspirar a semana; além de ser uma leitura de múltiplas linguagens.

O leitor se reconhece na própria pilha de espera. Sempre tem livros esperando para ler. Sempre tem textos de blog favoritados para outros momentos.

Outra boa ideia é ler livros que inspiraram filmes. Sempre um bom ponto de partida. O chato – eu acho – é quando eles editam o livro com a capa do filme.

A dica maior é deixar os livros te acharem. Buscar o que te incomoda, o que te inspira e instiga na leitura.

Ler é estar ausente

16 Fev

Passei meu penúltimo dia de férias do trabalho enroscada com um livro. Às vezes a gente dá a sorte de topar com o livro certo, na hora certa. Aconteceu com o livro “Americanah”, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi. Ainda não posso falar sobre o livro porque a leitura segue em curso. O fato é que encontrar este livro há menos de 48 horas da volta à rotina do trabalho me fez refletir sobre a leitura e sua experiência na minha vida e no mundo de hoje.

Neste dia fiquei de pijama o dia todo. Mudei de lugar, de ambiente, comi pão com coisas dentro, mal vi o que houve lá fora. Não saí de casa. Parei várias vezes no meio da leitura para comer e pensar. Claro, no começo usei a internet um pouco mas à medida que a história ia crescendo a necessidade de estar ali foi aumentando. A TV não foi ligada e lá pelas 4 da tarde o celular ficou sem bateria e eu não recarreguei.

Ler tem disso. Ler é isso. É um afastamento para este mundo que começa a se construir como um video-game mental, como um sonho liquefeito. Você vai imaginando a cara de um personagem, fala o nome dele à sua maneira, vai vendo que semelhanças e que diferenças ele guarda com você mesmo. Vai ficando em silêncio não literalmente mas em um lugar inatingível que é difícil compartilhar, até mesmo com gente muito próxima. Por isso talvez o livro literário seja a experiência intensa que as telas, imagens, redes e textos não podem nos dar, apesar de proporcionar a leitura.

Hitchcock o leitor.

O fato é que ler, um livro, uma história, com personagens sobretudo, te afasta. Isolamento é a verdadeira definição de leitura. Assim como mergulho. Existe um mundo inteiro que se constrói entre leitor e personagens e nem mesmo o autor pode interferir. O que ele queria não importa, o mundo é de quem se apropria do texto. Assim como naqueles jogos de RPG o desenho da imagem mental dá lugar a um universo de símbolos reais e manipuláveis e quando você menos espera está pensando o que o personagem faria em tal situação da vida real ou desejando fugir, escorregar para este mundo.

Foi assim que personagens profundos e infames me fizeram companhia desde os tempos mais remotos  e nas horas mais inusitadas. De Huck Finn a Harry Potter, de Bella Swan a Raskolnikov todos tiveram – alguns ainda tem – um espaço dentro de mim e nestas horas estou ausente.

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