A Insignificância e os Cartunistas

31 Jan

O livro mais famoso de Milan Kundera, “A Insustentável Leveza do Ser” era daqueles que vi minha infância inteira. Meu pai tinha um exemplar e aparentemente amou a leitura pois estava todo desgastado. Junto com “Perfume”, “O Corpo Fala”, “Fernão Capelo Gaivota” era uma daquelas memórias literárias dos anos 80/90 eu tenho.

Por isso meu interesse nesse livreto novo do Kundera “A festa da insignificância”, publicado pela Companhia das Letras. Absurdamente li o livro em uma tarde, isso porque o autor fez uma pequena historia, cheia de hiatos interessantes e capítulos minúsculos (oi, Machado) o livro é de fácil leitura mesmo.

Há uma certa altura da vida que acredito que não escapamos mais de nossas referências, falamos de lugares específicos, estabelecidos. Minha leitura deste livro foi permeada por este meu olhar. Em janeiro de 2015 ainda sob o impacto dos atentados do Charlie Hebdo, na França não consigo pensar o livro de kundera de outra forma senão como um prenúncio – e agora um espectro – deste vazio que fica no ocidente.

insigificancia

Os personagens 4 ou 6 alternam suas narrativas aparentemente sem significância com contos sobre Stálin e o comunismo em que o autor sela uma mensagem: o vazio da política (ao menos esta polarizada entre capitalismo e comunismo) enquanto explicação do mundo moderno. Vejo um Kundera que enfatiza o humor como quimera mas que amarga o vazio de significado no mundo moderno. Ora, o atentado que vitimou 11 jornalistas/cartunistas em Paris não foi aterrador apenas diante de seus aspectos pós modernos como religião, xenofobia, imigração, republicanismo ou liberdade de expressão. Foram tiros certeiros no humor como resposta e na geração de 68. Parece-me que um dos aspectos do atentado é ter matado a crença da sociedade ocidental no paradigma da militância política como embate ao obscurantismo, gente que ainda combatia o capitalismo, criticamente. Lentamente os marxistas vão morrendo. Morrendo por dentro, de forma sistêmica. O que fica em seu lugar então?

“Pois ninguém em torno dele sabia mais o que era uma brincadeira. E é por  isso, a meu ver , que um novo grande período da historia se anunciava.” (A festa da insignificância, Milan Kundera)

Para kundera e seus personagens fica o humor, a insignificância, a vida em seus detalhes como maximização da existência. Há, nesta vida moderna dos personagens do livro, um cinismo, um vazio, uma elegia ao acaso. Rir, beber, viver os detalhes. Será suficiente para nos mantermos na metafísica do ocidente?

Gosto do livro sobretudo por estes e outros hiatos. Pequenos dilemas sem conclusão, lendas que não se sabem verdade, tormentos nos personagens que nunca chegam ao clímax porque afinal devem permanecer insignificantes. Pequenos, afinal a vida residiria agora nesta falta de relevância, no fim do humor. Tomara que seja assim tão simples.

A bunda de Paolla e Vinicius de Moraes

30 Jan

Amante confesso da anatomia feminina acredito que o poeta teria amado essa noite de 27 de janeiro de 2015. A internet, personalizada no burburinho das redes sociais, só falava de uma coisa: a bunda atriz Paolla Oliveira. Falava, não, urrava. Tópicos, memes, gifs, frases, epígrafes, pretensos ataques cardíacos tudo em nome da objetificação do corpo. Consensual, claro, afinal a atriz estava ali em rede nacional mas nem por isso menos predatória.

Mas a noite não teria sido de todo amores para Vinicius, o poeta. Foi neste mesmo dia que sua filha mais velha, Susana de Moraes faleceu.

Maluco mesmo é este mundo em que a gente pensa que já viu de tudo e você vê intelectuais respeitados, marmanjos de todo tipo, mulheres de todo tipo tratarem em praça pública virtual da , digamos, anatomia a atriz. O que tinha tudo para ser mais uma noite machista na timeline da vida virou como o vento pois no Jornal Nacional bunda – ainda – não pode ser notícia. Fato jornalístico por assim dizer. Susana por outro lado alcançou os lides do dia. De forma surpreendente.

E nessa hora a filha de Vinicius que se foi ainda cheia de planos deu as mãos a Paolla num sopro de otimismo dos tempos. Pois o âncora disse com todas as letras, que “ela era casada há 26 anos com a cantora Adriana Calcanhoto”. Enquanto se digladiavam na internet debates sobre a – grande , linda, etc – bunda a mulher finalmente marca um gol na terra brasilis.

Fiquei emocionada de fato ao ver que Susana foi reconhecida por sua relação de fato, por sua companheira de vida, de história, de lutas. E quantos anos mesmo foram necessários? Quantos atores, atrizes, cantores e anônimos viveram sua vida de amor profundo mas homoafetivo nesta sociedade cristã e que morreram e a seus companheiros foi negada a homenagem pública, a consternação coletiva que apazigua cada viúvo, cada viúva?

A bunda de Paolla deve sossegar nessa noite que uma mulher pode enviuvuar e enterrar sua companheira com dignidade de fato. Porque foi Susana em seu mecenato incansável, em sua postura em vida ativa que fez o futuro de Paolla diferente neste mundo.

Numa noite dessas o poeta dormiria em paz .

Susana e Vinicius de Moraes

4 Maneiras de ser colaborativo no trabalho – e na vida !

27 Jan

A colaboração virou um grande tema na minha vida desde que comecei a trabalhar na escola com crianças e até antes quando era uma contadora de histórias. Colaborar é uma palavra do mundo atual mas descobri que é super difícil de colocar sua ação em prática!

Ser mais colaborativo e receber mais colaboração talvez seja o desejo de muitos mas no ambiente de trabalho é uma coisa difícil de se materializar. Uma das maneiras mais efetivas de ver a colaboração acontecer na vida real é criando uma rede, afinal colaborar é uma cadeia. Mas afinal o que é colaborar? Colaborar é promover ações conjuntas que usem ideias de duas ou mais partes para um bem comum.

O ambiente de trabalho é um espaço em que a competição costuma determinar a tônica das interrelações, no entanto um ambiente colaborativo pode e deve ser construído entre os pares de trabalho. A experiência leva ao entusiasmo ao sentimento de valorização no trabalho.

Abaixo quatro maneiras para ser mais colaborativo no trabalho.

1 – Planeje em parceria.

Pode ser em dupla, em trio. Pode ser para um projeto, para uma apresentação, para um novo produto. Cerca-se da ajuda e do estímulo das pessoas sem medo de perder ou ganhar mas com objetivo final comum é uma grande forma de trabalhar e aprender colaborativamente.

2 – Para somar, divida.

Links, moodboards, fotos, planejamentos, planilhas, apostilas, caronas, lanche na hora do cafezinho. Dividir estreita laços, afrouxa limites, diminui barreiras e fortalece o  espirito de bem comum no trabalho.

3- Ensine uma coisa que sabe.

Muita gente que trabalha junto há anos não domina a expertise dos colegas de mesa, se departamento ou de escritório. Ensine uma técnica que é só sua e que pode parecer parte banal da sua rotina. Compartllhar conhecimento é uma das maneiras mais eficazes de colaborar. Uma vez ensinei a uma colega de trabalho como navegar no servidor interno e achar arquivos, ficamos mais próximas desde aquele momento e uma janela para a troca de ideias se abriu.

4 – Compartilhe criatividade e angústias

Um dos erros mais comuns no ambiente de trabalho é o isolamento. Muitas vezes pensamos que os problemas, dramas e dificuldades são nossa exclusividade. Compartilhar alivia a tensão e arrefece a sensação de solidão. Compatilhar ideias e sentir seu impacto em setores, salas de aula, clientes diferentes dos seus é um dos maiores poderes da colaboração. Sem medo de perder mas com vontade de dividir para somar dá para compartilhar pastas de imagens no pinterest, objetivos de projeto, soluções criativas. A criatividade geralmente é curadoria ela não surge mas é lapida com experiência e muita experimentação.

Igualados pelo coração

7 Jul

Uma insone e cheia de ressaca noite de domingo de fim de férias, de fim de copa me levaram a achar na Tv o filme “The Normal Heart”. Ele conta a história do escritor Ned Weeks; judeu, americano e gay. A história tem dois planos : o surgimento da epidemia de AIDS em Nova Iorque nos anos 1980 e a história de amor de Ned e o jornalista Felix Turner.

O filme é tão arrebatador que me levou a 4 horas ininterruptas de pesquisas sobre o tema/história em uma jornada que misturou emoção e auto-educação. Ned encarna a persona do ativista gay americano Larry Kramer famoso por seu estilo combativo, ácido, crítico. No filme Ned Weeks busca agressivamente conscientizar, buscar apoio governamental e social para o sofrimento, isolamento e apatia que atinge a comunidade gay norte-americana nos primeiros tempos da epidemia.

Paralelamente ele descobre o amor com o então jornalista do New York Times, Fred Turner. A história é recheada de tudo que um amor cinematográfico tem: cenas de sexo tórridas e beijos afetuosos e uma intimidade tão profunda que ultrapassa o limite do jogo cênico dos personagens. O expectador tem diante de si dois homens, dois seres humanos ligados por um profundo laço. O amor deles é tocante e vivo o suficiente para incomodar o expectador e fazer crescer o sonho de viver um amor assim. Por isso sofremos junto com o personagem de Fred quando ele é diagnosticado e devastado pelo vírus da AIDS.

O filme é perturbador pelo nível de beleza : da raiva ativista à delicadeza do amor somos igualados pelo coração. O texto de “The Normal Heart” vem sendo encenado nos estados unidos desde 1985 quando Kramer conta sua semi-biográfica trajetória de luta pelo reconhecimento, acolhimento, tratamento humanizado e pela garantia dos direitos civis dos gays em relação à AIDS.

O que Ned/Kramer nos fazem pensar é que não há debate mais atual do que a luta contra a AIDS que permanece como há 30 anos atrás: cercada de preconceitos e mal entendidos; sem cura e uma epidemia. O que vemos em tela é um escritor raivoso ante a uma comunidade gay que ele considera passiva ao aceitar as precárias condições de atendimento e vítima da intensa liberação sexual dos anos 1980. A dura e difícil trajetória do homossexual que se descobre, se culpa e busca aceitação está longe de ser um paradigma de um passado distante, penso em Keith Haring, artista símbolo da cultura underground urbana dos anos 80 também gay e morto pela AIDS em 1990. Seu trabalho, profundamente definido por sua sexualidade, tomou também contornos de ativismo em peças famosas que se tornaram símbolo de uma geração como “silence= death” .

haring12

O filme emocionou claro, muito mas o mais surpreendente foi o quanto me provocou pessoalmente. Observo o legado que gerações de ativistas deixou para que os gays sejam vistos como grupo social com direitos e garantias civis. Penso muito sobre como agimos com a vida como se tudo que temos como sociedade estivesse sempre posto; ver ativistas como Kramer, como Haring e tantos outros faz doer no peito a fala de Patti Smith sobre a responsabilidade que temos, sobre o que deixamos no mundo.

Com elenco estrelado (Mark Ruffalo, Julia Roberts e Jim Parsons) e produção impecável da HBO, acredito que o filme abocanha vários prêmios e espero mais ainda: que tire muitos de nós dos sofás e nos empurre para as nossas causas. Nas palavras de Kramer “to win a war you have to start one”

Os corações do carnaval de BH

26 Fev

Sábado, 11 de fevereiro faltando 1 semana para o inicio oficial do carnalval.  A cidade de Belo Horizonte seguia seu curso de sábado a tarde: gente nos shoppings, clubes e piscinas cheios, mesas de bares nas calçadas. Menos no bairro Santo Antônio. Na praça Cairo fantasiados e pintados chegavam de todas as direções, prontos para debulhar uma descida colorida nas ruas do bairro: o bloco  Mamá na Vaca desenhava seu percurso.

Baterias, crianças, confete e serpentina. Como aquelas gramas verdes que teimam em nascer nos cimentos os foliões desciam as ladeiras intrigando as outras pessoas com sua invencível vontade de alegria. E o carnaval de Belo Horizonte foi assim : muita gente trouxe confete no meio do cabelo para dentro de uma cidade desavisada de que devia celebrar: celebrar a rua, a cidade, tocar e sorrir.

E no rosto das pessoas além do sorriso o que se via eram corações. E não eram  licenças poéticas metafóricas, eram verdadeiro corações. Vermelhos , pequeninos e em todas as bochechas. Meninos , homens, velhos, crianças, casais, palhaços, colombinas… quem vinha bloco abaixo, rua acima atrás da bateria, dançando miudinho ou balançando o pezinho tinha um coração vermelho na bochecha.

A ideia que virou marca registrada do carnaval 2012 em BH veio dos fundadores do bloco do Amor. Dois anos atrás eram 20 pessoas animadas a fundar um bloco cujo tema fosse o amor quando uma amiga chegou com a ideia de recortar um coração vermelho para simbolizar. De 20 camisetas este ano o bloco passou das 120 e os corações – sempre distribuiídos ao longo do bloco pelos incansáveis do amor – este ano passaram dos 10 mil colados nas bochechas alheias ao longo dos 20 dias de folia (incluindo os blocos de pré e pós carnaval).

Os pequenos adesivos acabaram virando um símbolo da resistência. Se você passou por um bloco certamente você tinha um coração colado à face.  Para a cidade símbolo de evasão, de feriado, de silêncio sempre havia um coração colado em alguma bochecha indo ao supermercado depois do bloco, nos butecos dos entornos, colado nas paredes dos quartos, nas capas de agendas para ficar como lembrança. Formando um álbum solidário de todos que ousaram cantar e dançar em colar amor nas ruas dessa Belo Horizonte

viva o amor.

Quando melancolia atinge a Terra

9 Ago

Confesso que saí de casa com gula : queria ver um filme que mudasse meu ano. Joguei nas costas do Lars Von Trier e de seu “Melancholia” um peso danado. Talvez por isso sai do cinema chutando pedrinha; pôxa , bom filme, mas , mas, mas. Conversa vai no buteco, derramo um destilado guela abaixo pra dividir as ideias e tentar espremer a narrativa pra aí, sim, ser o filme do meu ano. Não rolou, no fim, conclui que Melancholia era assim, assim.

Mas isso faz uns dias e tudo que faço desde então  – além de olhar pro céu e imaginar um planetão gigante vindo pra cima de mim – é pensar em Melancholia.O filme cresceu em mim. Penso nisso, penso nele o tempo todo.

tem duas irmãs e tem duas melancolias: uma é um planeta que numa fabula fantastica vai atingir a terra e tem o sentimento melancolia, que perpassa pelas irmãs protagonistas. O que me manteve pensando foi a personagem Justine (Dunst) que é aquela que vai do estado de fragilidade psiquica até a depressão ,para, enfim, chegar à melancolia. E que, despertaria sentimentos de compaixão no expectador. Daqui onde olho Justine fico intrigada, afogada em sua personificação desse sentimento. E a propria define : eu sei demais, sempre soube.

E é nesse ponto que Von Trier me deu a voadora cinematográfica: Melancolia é tudo menos ser indefeso, alinado, ausente: ser melancólico é saber demais. É ter vivido a vida em dose suficiente para se sentir vazio diante dela (e mentalmente perguntar pra toda e qualquer situaçã0: what’s the point?). O melancólico é o além do depresssivo, abaixo do religioso, do sectário, do perfeccionista, ao lado do compulsivo. O melancólico sabe porque já teve seu coração dilacerado por quem amava profundamente, porque ja quis bater pra doer no seu filho, porque quebrou em dois o sonho de alguém, porque, desistiu da coisa certa por pura covardia, porque na hora H, foi negligente. Porque viveu, ralou os sentidos no muro chapiscado e , tá marcado pra sempre: é melancolia – sabe demais.  Por isso não teme a morte , nem ama a vida.

E quando Melancolia atinge a terra – ambos, o planeta  e o sentimento de desolação – Justine se revela a mais corajosa, suficiente pra consololar, para não surtar , para viver a redenção que cabe a toda grande alma e nessa hora, na cena linda que Melancholia atinge a terra! ah! Ela se cura, porque a vida plena exige a ausência da Melancolia : é preciso se entregar bravamnte, deixar vir : e preciso – e Justine, no fim, tem  – ter fé.

:: ARTISTAS SÃO SÓ GAROTOS::

31 Jan

Amir Slama quando ainda comandava a sua Rosa Chá

Esperava biografia, histórias de bastidores do rock e da arte, esperava emoção sim, porque não?E o que eu procurava quando finalmente peguei o livro “Só Garotos” da Patti Smith pra ler. Premiado e ovacionado prometia.

Imaginei tudo menos uma história de amor. Amor naquele sentido que pouca gente no mundo acha: incondicional, perseverante, libertador. Patti ama primeiro a ideia da arte, depois ama ser artista, ama Robert Mapplethorpe e ama tanto que acompanha a sua trajetória com artista e como homem.

e como Patti escreve bem.

cheio de cenas comoventes de um mundo cheio de vontade e sonho que parece filme antigo que não existe mais. talvez o que inexista seja a capacidade de escapar da garra sólida de um destino pronto – como ser mãe, mulher, do lar, por exemplo – e ir no rastro do que se quer.

o que conta aqui é o ponto de vista de Patti que faz uma homenagem amorosa a um dos artistas mais intensos e controversos de seu tempo. Mapplethorpe que para muitos sempre seria o fotógrafo que desvendou o sexo de maneira brutal é uma figura frágil, andrógina e complexa nas letras de Smith.

 

O trabalho de construir uma marca, um design um estilo acima dos cortes e costuras de uma roupa é longo, sobretudo no Brasil, onde ainda há que se fazer uma cultura para a moda que ultrapasse a linha fácil da imagem. O que ficou na minha cabeça , sem dúvida foi a trajetória de estilistas mil que deram a vida para construir sua marca e sua história. Patti não nasce artista de rock, na maior parte do livro ela acha que desenhará ou será poetisa. Esse é, portanto, um livro sobre caminhos e escolhas.

Meu pensamento e homenagem vão para alguns estilistas que deixaram um nome acima da marca e seu trabalho foi de forma tão intensa que mesmo longe de suas marcas de origem algo de seus sonhos paira. E é muito mais que o nome impresso na etiqueta interna de uma peça de roupa.

é o que se sonhou para sua vida. é  o modo como você escreveu sua história.

Tufi Duek

 

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