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Nas frestas dos livros de Chico Buarque de Hollanda

4 Abr
Desde meu tempo de escola era meio obrigatório gostar de Chico Buarque. Mesmo tendo somente o rádio e umas fitas cassete além pais não militantes claro que sabia cantar ao menos o refrão de seus hits musicais. Ele estava lá: no livro de história, nos compêndios, nas sabedorias de roda de samba, era um unânime. Por isso mesmo meu eu adolescente sempre rejeitou esse culto ao homem bonito-politizado-artista-perfeito. Tinha uma melhor amiga que amava Chico e depois na faculdade de humanas conheci um sem-número de “Chicólogas”, como eu chamava secretamente aquelas que sonhavam em tomar Chico Buarque como amor ou amante.
Tudo isso pra dizer que nunca tive grande simpatia pelo Chico. Como assim um personagem que a gente é obrigada a amar sob o risco de ser a parte de um caldo cultural relevante? Eu, criada na distorção do metal, batizada no new metal e no hardcore e amante eterna do Indie Rock já tinha resistência natural à MPB e suas facetas. Escolhi não amar Chico.
Ja adulta lembro de passarem pelas minhas mãos e nas muitas bibliotecas em que trabalhei exemplares dos livros de Chico Buarque escritor. Sem muito interesse passei por eles como passei pelo Chico cantor.
Neste ano estava em um aeroporto apenas para usar o caixa eletrônico e sem livro para ler. Comprei  “O Irmão Alemão” , livro mais recente do Chico Buarque. Nele o autor conta a história – quase verdadeira – da descoberta e da busca pelo meio-irmão nascido na Alemanha antes da segunda guerra.
O genial do livro é a quase verdade da história. Os personagens meio que são Chico e sua família, meio que não são. A genialidade do Chico escritor é fazer digressões belíssimas entre o que é a realidade de seu protagonista , Francisco – Ciccio – de Hollander e a fantasia do filho de intelectual que busca um irmão perdido e o encontra em todas as esquinas, em todos os estrangeiros. Para isso o escritor constrói um retrato vivo e intenso da São Paulo nos anos 1960 ante e depois do golpe militar. Francisco, o protagonista, filho segundo de um irmão belo e conquistador não esconde suas manias e revela ácida e docemente a trajetória adulta de um homem. Através dessa busca que se mistura com sonho o personagem – e quem sabe o próprio Chico –  (re) constrói sua relação com o pai enquanto busca o laço com irmão alemão. Os livros, as mulheres, o retrato de seu tempo. Chico Buarque escritor realiza o que parece impossível, atinge o melhor de sua prosa usando digressões em que fantasia e realidade se misturam.
Os vazios que o autor deixa para construir os personagens são bonitos, deixam margem para o leitor completar e imergir na história meio real, meio fictícia do seu irmão alemão. O fim do livro porém tem um buraco, salta de um fase para outra de modo abruto e estranho para nos contar afinal se Francisco de Hollander encontra ou não esse tal irmão alemão.
Chico deve ter se valido do seu talento para o lirismo porque há passagens belas, descrições precisas de personagens, detalhes como o jeito de falar alô em francês, umas botas com saia curta, um jeito de poema em todos os capítulos.
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