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Ler é estar ausente

16 Fev

Passei meu penúltimo dia de férias do trabalho enroscada com um livro. Às vezes a gente dá a sorte de topar com o livro certo, na hora certa. Aconteceu com o livro “Americanah”, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi. Ainda não posso falar sobre o livro porque a leitura segue em curso. O fato é que encontrar este livro há menos de 48 horas da volta à rotina do trabalho me fez refletir sobre a leitura e sua experiência na minha vida e no mundo de hoje.

Neste dia fiquei de pijama o dia todo. Mudei de lugar, de ambiente, comi pão com coisas dentro, mal vi o que houve lá fora. Não saí de casa. Parei várias vezes no meio da leitura para comer e pensar. Claro, no começo usei a internet um pouco mas à medida que a história ia crescendo a necessidade de estar ali foi aumentando. A TV não foi ligada e lá pelas 4 da tarde o celular ficou sem bateria e eu não recarreguei.

Ler tem disso. Ler é isso. É um afastamento para este mundo que começa a se construir como um video-game mental, como um sonho liquefeito. Você vai imaginando a cara de um personagem, fala o nome dele à sua maneira, vai vendo que semelhanças e que diferenças ele guarda com você mesmo. Vai ficando em silêncio não literalmente mas em um lugar inatingível que é difícil compartilhar, até mesmo com gente muito próxima. Por isso talvez o livro literário seja a experiência intensa que as telas, imagens, redes e textos não podem nos dar, apesar de proporcionar a leitura.

Hitchcock o leitor.

O fato é que ler, um livro, uma história, com personagens sobretudo, te afasta. Isolamento é a verdadeira definição de leitura. Assim como mergulho. Existe um mundo inteiro que se constrói entre leitor e personagens e nem mesmo o autor pode interferir. O que ele queria não importa, o mundo é de quem se apropria do texto. Assim como naqueles jogos de RPG o desenho da imagem mental dá lugar a um universo de símbolos reais e manipuláveis e quando você menos espera está pensando o que o personagem faria em tal situação da vida real ou desejando fugir, escorregar para este mundo.

Foi assim que personagens profundos e infames me fizeram companhia desde os tempos mais remotos  e nas horas mais inusitadas. De Huck Finn a Harry Potter, de Bella Swan a Raskolnikov todos tiveram – alguns ainda tem – um espaço dentro de mim e nestas horas estou ausente.

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