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:: AQUILES ::

30 Jun

Alguns livros são famosos por sua frase de abertura. Assim é ‘Metamorfose’ de Franz Kafka e ele tem uma abertura muito famosa. Não somente por se tratar de um livro clássico, de uma história clássica; a abertura é sublime, sobretudo porque economiza a leitura do livro: o caixeiro Gregor Samsa acorda em um dia comum transformado em uma barata. E é isso.

Está contada a história antes mesmo do fim do primeiro parágrafo. O que Kafka desenvolve depois de entregar o ouro de seu próprio livro é nos mostrar como a diferença é capaz de isolar um indivíduo. Gregor, agora barata afunda no absurdo de seu próprio destino e, isolado, cansa-se… desaparece.

O que Kafka não discute no livro são as razões da metamorfose de Samsa. Entre ficção e absurdo o leitor é levado ver com naturalidade o fato de uma pessoa ser mutada em um quitinoso inseto. E é de nossa insossa reação que lembrei quando vi os sapatos da Dsquared2 em que os saltos são vertebrais ossos.  É como se metamorfoseado o corpo da mulher urbana, sapatólatra aloprada, que desfila alheia nas alturas fosse caprichosamente readaptado à nossa própria fascinação e a coluna vertebral não mais acabasse aos calcanhares, mas sim nas alturas. O salto não é forma de vértebra impunemente.

Talvez a metamorfose de Kafka brincasse com o limite das concessões que fazemos à nossa vaidade.  E o designer captando  esse sopro feminino darwiniza o desejo e cria uma nova mulher no futuro mutante, impostada em uma nova forma corporal que já vem do berço calçando saltos.

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