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:: Miseráveis ::

6 Jul

             Quando o personagem principal do épico romance Os miseráveis  Jean Valjean finalmente resgata a menina Cosette das garras dos pais exploradores a primeira coisa que faz é comprar-lhe roupas novas. Ele compra um vestido preto, botas pretas e uma capinha preta. Cosette sente um misto de encantamento e admiração pelas roupas novas e pelo que elas finalmente representam. O fim de um tempo de escravidão e invisibilidade. Um preto mais visível é o que se anuncia no desfile do americano Rick Owens que há anos veste as mulheres francesas …

… uma música que mais de assemelha a um conjunto de barulhos irregulares anuncia aos espectadores que o show vai começar. Luzes baixas e modelos andróginas entram vestidas de cinza chumbo: cor de ruas e de fábricas para terminar em um desfile de pretos e formas.

              Separados por contextos e formas distantes Owens e Cosette se encontram no amor ao preto. É assim, de preto, que a pequena enfrenta uma nova vida e uma nova França pós-tomada da Bastilha. O estilista desafia as duas dimensões do mundo com recortes, poluição e texturas em um mar de roupas pretas. A menina em um vestido clássico e A mulher de Owens com pinturas, coberturas e volumes: ambas partem para uma guerra. A guerra não está na forma, está na cor.

O preto é a guarda do luto, de um respeito; é forma despontada e é, para ambos os personagens a armadura com que se defendem de um mundo novo que não se sabe o que espera. Novas regras nos aguardam no novo milênio e vamos de preto para confundir e fundir com a urbanidade e com a nova sociedade. E unidos vestem suas mulheres de negro, da noite e de sombras para que amanheçam – talvez claras – novas eras.

Para Rick Owens e para Vitor Hugo o preto é cor de quem está pronto.

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