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O avesso da pele

8 Mar

A imagem que me ocorre quando penso no livro que acabo de ler “Americanah“, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi é o prisma que refrata a luz em matizes de cores diferentes em todas as direções. A luz branca que vem é negritude ou a questão racial, de pele, de raiz, de pertencimento, de busca. A história contada pela protagonista Ifemelu, uma então adolescente de Lagos, Nigéria e sua saga percorrendo o mundo em busca de escolhas. No percurso e no fundo uma história de amor muito, muito bem desenhada e contada. A protagonista é daquelas que depois do segundo capítulo já é uma pessoa que você deseja ser, sabe como? Inteligente, afiada, resolvida, sensível na medida, crítica, suscetível, complexa, altiva, direta e a lista segue.

Quem sabe Ifemelu não é um eco da própria autora do livro? Muitas vezes pensei isso. Conheci Chimamanda por sua famosa TED-talk sobre feminismo. E ela é magnetica, linda e desejosa. Ifemelu também. E vamos com ela até a América para descobrir o irônico fato de que apenas ao pisar em um país onde raça e exclusão formam uma equação e que a maioria da população não é negra ela sente necessidade de refletir, de dar voz ao paradigma do racismo. Em uma passagem do livro, quando volta à Nigéria a protagonista diz algo assim: quando cheguei a Lagos não quis mais escrever meu blog sobre racismo, na Nigéria não me senti negra.

Quando vai para os Estados Unidos Ifemelu deixa para trás o amor, na pessoa de Obinze, o homem perfeito-imperfeito. Culto, filho da classe média que imigra para a Inglaterra e ambos, em uma vivência distinta lançam sobre o prisma a luz que refrata as matizes do imigrante no primeiro mundo, do negro no quintal dos brancos, do racismo, da xenofobia.

Americanah é tão sensível e tão franco quanto eu leitora jamais imaginaria. Na voz de sua protagonista as partes do livro vão se encaixando e ela é levada de volta à Nigéria após anos de amores, prosperidade e sucesso para encontrar-se com o fim de seu destino: será Obinze? Como Chimamanda é boa !! Eu logo estava enchendo o livro de orelhas e marcando trechos à lapis. Americanah é um compilado de quatro partes de uma história só: amor, continente e raça. É um livro sobre ser mulher no mundo de hoje, sobre ser homem no mundo de hoje. É uma história de amor maravilhosa. Daquelas que você torce para os personagens, pensa neles durante o trabalho, imagina o que eles farão agora.

Não sei de onde vem essa citação do homem que precisa dar a volta ao mundo para encontrar a própria aldeia mas é esta a história de Ifemelu e Obinze. Pessoas que, grávidas de sonhos, filhas de um país dividido migram e emigram para encontrar o que estava ao lado, ou do lado avesso.

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