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::O TREM DE DOUTOR JIVAGO NOS TRILHOS DA CHANEL::

2 Jul

Quando finalmente peguei Dr.Jivago pra ler pensei na Revolução Russa e na história de amor épica que sempre imaginei encontrar no livro. O que mais me impressionou após acompanhar o personagem por mais 40 anos e duas grandes guerras em um país do tamanho de um continente foi … a neve.

Sim, a neve. Ivan Ivanovich Jivago, médico que no começo do livro mora na grandiosa Moscou conta sua vida atravessada pela Revolução Russa de 1917 e posteriormente pela revolução bolchevique. Ele se muda, se apaixona, e em infinitas viagens de trem atravessa o país e muitas vezes o faz a pé. Migra para o interior gelado da Rússia e, de médico Ivan vira agricultor. Por muito tempo e sua história de vida é tão cinza quanto os muitos dias de neve. E me impressionou de forma fundamental o modo como sobreviver ao frio é uma marca da narrativa. É preciso se aquecer com lenha, carvão, querosene e, à medida que o país empobrece, o frio torna-se um capital inimigo da jovem república soviética.

O frio comanda os destinos dos personagens, orna a paisagem, escurece os dias. O branco na paisagem é o plano de fundo da história. E aqui, em um país tropical, não é fácil imaginar como sobreviver a tão potente inimigo natural. Talvez nosso tropicalismo, talvez nossa preguiça estética ou alguma outra coisa  fizeram com que olhássemos com olhos pouco amigáveis para a coleção de inverno que Karl Lagerfeld colocou na passarela de inverno 2010 da Chanel.  Colecionador de arrebatadores sucessos para a marca francesa, sua coleção de peluda e cheia de volumes não foi unanimidade entre os críticos e  fashionistas.

Botas de pelos; casacos volumosos; vestidos peludos tão densos que nos lembram cabelos femininos. Tinha gelo nessa passarela, tinha uma coisa polar. Havia a mesma coisa que Bóris Pasternak (autor de Dr.Jivago) viu na neve: a capital importância de sobreviver a ela. Se é difícil imaginar na vida real mulheres desfilando com botas de pelos compridos consigo vê-las a vontade nas ruas da Moscou devastada, andando sem rumo por um pais em fome. Consigo ver chapéus de urso polar nas cabeças dos andarilhos das linhas de trem (que param de circular porque não há mais combustível).

Não digo que a moda só possível se for para a vida prática, ao contrário, digo que o fascinante é a moda adornar um cenário de desolação e fantasiar, ficcionar o cotidiano que – porque não – anda nos lembrando um país devastado e cinza também.

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